segunda-feira, abril 02, 2007

foda-se a ética

Há um tempinho saiu no Overmundo um texto falando sobre a falta de qualidade do livro Até o dia em que o cão morreu e a dificuldade que isso acarretou em adaptá-lo ao superior filme Cão sem dono. O fato do autor do texto (Fábio Godoh) não ter gostado do livro de longe não me incomodou tanto quanto o fato dele ter sido tão anti-ético nessa empreitada, pois como é explicado no texto e nos comentários, ele estava envolvido no processo de adaptação.

Eu trabalho com material de grandes clientes e grandes agências (e pequenos também - não os desmereço) e já mencionei aqui no blog como vira e mexe eles fazem uma zona com tudo que é trabalho, de detalhes a decisões importantes. Na verdade é um prazer pessoal meu corrigir os erros dos clientes.

Entretanto eu não os menciono por nome, por não achar isso ético. Eu estou inserido no contexto e é muito fácil ficar pondo a culpa nos outros, mesmo quando é dos outros. Mesmo quando fazemos algo que achamos menor, é um esforço coletivo para torná-lo maior, mas nem todas as batalhas se vencem.

Estou falando isso tudo porque hoje fiz um dos trabalhos mais perturbadores da minha vida. Transformei a foto de uma garota de biquini em uma menina pelada, para colocar um quadriculado censurando em cima; isso tudo para uma "campanha" anti-pedofilia. Quando terminei a alteração na foto, me senti muito mal e envergonhado, não queria que ninguém visse (e não porque ficou mal-feito, isso ficou, e tenho que retocar bastante) mas porque não tive orgulho do resultado final em qualquer aspecto.

O que me deixa mais abalado é a razão de ter posto aspas na palavra "campanha". Não será veiculado, é uma peça falsa para que a agência em questão entre em Cannes e concorra a um prêmio. Eu estou me segurando muito para não falar o nome da tal agência.

Um amigo que permanecerá anônimo acabou de me mostrar uma imagem desconcertante de um pênis esmagado e furado. Ele disse que não vai dormir por causa disso, eu não fiquei tão impressionado, porque eu não esmigalhei o meu pinto, eu desenhei aquela menina, e isso me perturba.

Um assunto grave como pedofilia, que poderia ser uma campanha séria, usado para simplesmente afagar os egos de uma agência. Minhas mãos estão muito sujas. Eu mantive a ética, e o cliente?

Depois acham estranho eu não gostar de publicitários...

1 comentário:

Griffin disse...

É triste isso.
Já acho esses prêmios de publicidade extremamente fora de propósito (qual é o sentido de premiar uma peça que não foi feita pra cumprir a função da publicidade?), e esses caras deram um jeito de tornar isso ainda pior. Tá certo que a imagem estará pixelada, mas beira o abuso a utilização da imagem com esse fim.