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sexta-feira, fevereiro 08, 2008

a fonte da picaretagem


Há alguns anos fiquei empolgadíssimo quando ouvi falar a respeito de The Fountain, terceiro longa de Darren Aronofsky. Tinha gostado muito de Π e Réquiem para um Sonho e estava louco pra ver como Aronofsky iria tratar uma Ficção Científica declarada.

A sinopse era ambiciosa: Uma história encompassando três épocas: As grandes navegações, os dias e hoje e o futuro distante; sobre um mesmo homem em busca de sua amada (ou algo assim). Fiquei bolando várias possibilidades de como a trama poderia ser, como ela se amarraria e tudo o mais.

O tempo passou, o projeto foi cancelado, foi parar no limbo e então voltou. E foi na mostra de 2006 que consegui finalmente matar minha sede por The Fountain. E foi bem diferente de qualquer coisa que eu esperava. O visual e a trilha sonora eram sensacionais, os efeitos eram diferentes de tudo que eu tinha visto, com uma direção de arte impecável. Já a história deixou a desejar.

Depois de ver novamente o filme repensei alguns conceitos, amarrei pontas na trama e passei a gostar muito mais. Outro dia elaborei uma sinopse melhor do que a oficial quando recomendei o filme a um amigo: Uma ficção científica sem tecnobable, sem trajetória do herói, sem missões absurdas ou escapadas miraculosas. É de fato ambicioso e diria até um 2001 do coração, ao invés da cabeça.

A produção do filme foi turbulenta, e quando Brad Pitt teve problemas com o diretor e foi fazer Tróia (fico imaginando o que se passou na cabeça do sujeito: "Ao invés de fazer um filme cabeça, diferente, com um diretor novo e cheio de talento acho que vou fazer um blockbuster com um alemão maluco sem imaginação que só vai acentuar minha fama de corpo gostoso e casca vazia." vai entender) Aronofsky guardou para ele os direitos de publicar a história em quadrinhos, e foi o que ele fez pela Vertigo.

Sempre ouvi dizer que o roteiro havia mudado e sido simplificado desde a saída de Pitt para comportar um orçamento mais "modesto" e que o quadrinho era baseado no roteiro original e mais megalomaníaco. Com essa informação, comprei recentemente a Graphic Novel.

E me senti enganado. A história é exatamente a mesma que a do filme. Para não ser tão drástico existem pequenas diferenças no que ocorre durante as grandes navegações e um toque no final que não muda em nada a trama ou a experiência em si. Mudanças cosméticas no máximo, meio como a diferença entre A Sociedade do Anel e sua edição estendida, aliás, bem menos que isso.

O pior de tudo é que o meio do quadrinho nem é explorado de maneira alguma. Ao contrário de títulos nobres como V de Vingança, Sin City ou mesmo O Gralha, a graphic novel não vai além de um momento de exibição do artista. Os desenhos são de fato muito bonitos, pinturas praticamente, mas em nada elas acrescentam à experiência de leitura da história. É como quadrinhos ilustrados por Alex Ross, é tudo muito bonito e tudo o mais, mas eu gosto de ler quadrinhos, não ver pinturas com balões; se for assim prefiro uma exposição do Lichenstein - que mesmo assim consegue explorar mais o meio dos quadrinhos do que The Fountain.

O que acreditei ser uma nova experiência nada mais se mostrou do que um golpe financeiro em forma de item de colecionador. E por mais que eu tenha gostado do filme não quero colecionar todos os itens relacionados.

Muitos dizem que Requiem Para um Sonho e Π são a mesma coisa, e mesmo gostando bastante dos dois sou obrigado entender o raciocínio: estilisticamente são a mesma coisa, lidando com outros temas. Achei que estava comprando uma nova interpretação e levei um embuste. Estou decepcionado com Aronofsky, que está se mostrando um belo de um picareta, e começo a concordar mais com os críticos de Π e Réquiem.

segunda-feira, outubro 22, 2007

O Ano do Peixe - 31ª Mostra de Cinema de SP

Acabei perdendo cerca de 20 minutos do início do filme, portanto podem considerar minha opinião incompleta. Mesmo assim consegui pegá-lo em um ponto aceitável para compreendê-lo e envolver-me.

Ao perceber que se trata basicamente da história de Cinderella em Chinatown, achei que estava fazendo algum tipo de descoberta - mas é isso que dá não ler a sinopse direito, já que isso está claramente explícito nela.

O filme utiliza uma técnica de rotoscopia digital semelhante à de "O Homem Duplo" e "Waking Life", não com o mesmo efeito cartunesco, mas numa tentativa de aproximar-se de uma pintura impressionista. Mas o resultado ainda é parecido, ainda mais considerando o tom de fábula da história, que quase a coloca como um quadrinho de Neil Gaiman.

Ye Xian é uma imigrante sofrida que padece nas mãos de uma chefe cruel, e atravéz de encontros fugazes com Johnny e figuras bizarras nas ruas de Nova Yorque consegue encontrar um fio de esperança para sua situação. Seu único amigo é um peixe mágico que cresce demais para seu próprio bem.

A trilha sonora é exagerada em alguns momentos, assim como a narração ao final do filme - nos beneficiaríamos com algo mais sutil. Mas o filme não tenta mascarar seu positivismo em momento algum, assumindo o que é: quase infantil. Um dos pontos positivos é ver diversos atores orientais que estamos acostumados a ver como coadjuvantes em produções hollywoodianas como os protagonistas da história.

Acabei por dar 4 em 5, mas ainda estou na dúvida se vale tanto. É provável, mas considerando que não vi o filme todo deveria ter me abstido.

Perdido em Pequim - 31ª Mostra de Cinema de SP

Tenho dificuldades para escrever quando um filme é mais ou menos. Se ele é o máximo ou um desastre completo eu me esbaldo, mas no caso de Perdido em Pequim acabo ficando em cima do muro - e em se tratando da Mostra, acabo sempre em dúvida se a culpa é minha ou do filme - a sorte é que pude conferir com amigos independentes e no caso é culpa do filme mesmo.

Na verdade o filme é bom, competente. Mas não é imperdível, se você tem outro do qual está mais seguro para ver, não vale a pena mudar os planos. O mesmo que eu diria sobre O Ano do Peixe, mas aquele tem um toque a mais que o diferencia.

Uma produção bem feita, com boa história e performances muito boas, Perdido em Pequim tem tudo para ser um filmaço. Mas acaba se perdendo em sua própria narrativa, criando armadilhas para si mesmo na trama - especialmente no último terço do filme, que poderia ser completamente diferente, mais simples e mais curto, dando muito mais impacto.

Vale como um retrato da China atual, muito mais competente do que Solstício de Verão, mas ainda inferior à Dumplings. O contraste entre a classe emergente a aqueles que lutam para sair dos cortiços, e à confusão de valores que isso acarreta são temas poderosos que poderiam diferenciar este drama com toques de comédia incidental.

Eu digo, assistam, mas não percam Dumplings: Nota 3 em 5.

sexta-feira, outubro 19, 2007

MOEBIUS REDUX – A VIDA EM IMAGENS (2006) - 31ª Mostra de Cinema de SP



A vida e obra de Jean Giraud, mais conhecido como Moebius desde os tempos da Metal Hurlant são expostos aqui pelo próprio e por alguns ilustres colegas de trabalho. Através de entrevistas filme traça um belo perfil geral dessa figura importantíssima na história dos quadrinhos, tanto em atitudes como em influência visual.

Iniciando com uma sequência animada inspirada no estilo gráfico Moebiano "listando" alguns de seus principais trabalhos, o documentário coloca os prós e contras da vida do personagem, do ponto de vista do próprio e daqueles que conviveram com ele.

A trilha sonora é competente, mas não impressionante, mas para compensar o filme consegue alternar bem a paisagem trocando de personagem antes que eles se tornem profusos demais; e em quase todos os momentos em que o próprio Giraud está na tela há uma troca constante do fundo, alternando entre seu local de trabalho, sua loja e exemplos de seu trabalho.

O filme peca por mencionar apenas pontualmente sua vida pessoal, deixando de fora completamente entrevistas com familiares. Mas isso não o compromete, pois transparece vir de uma decisão consciente: Analizar Moebius como artista. E ele definitivamente o é.

nota 4 em 5.