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terça-feira, fevereiro 19, 2008

libertas (digitalis) quae sera tamen

Na última noite da CampusParty houve um protesto, que até onde eu saiba, foi o primeiro liderado por um robô (ou nem tanto, já que ele não anda tão rápido quanto seus companheiros ativistas humanos). A faixa empunhada pelos manifestantes reclamava do Senador Eduardo Azeredo (ex-governador abobalhado de Minas Gerais) e seu infame projeto de lei para cadastro de usuários de internet.

Por essa lei, todos os usuários de internet terão que fazer um pré-cadastro nos provedores identificando-se antes de poder ter acesso à rede. O "argumento" é que isso aumentaria a segurança na internet, inibindo fraudes e golpes. Na verdade, a lei foi elaborada para satisfazer os lobbystas dos bancos e de empresas de verificação on-line; que teriam seu trabalho dimunuido enquanto o trabalho dos provedores e cidadãos aumentaria.

É mais um caso claro do governo, com preguiça de trabalhar, resolver repassar suas responsabilidades ao cidadão comum, aumentando a burocracia e atrapalhando sua vida. Essa lei vai totalmente contra os projetos governamentais de inclusão digital e à própria natureza da internet. Sua elaboração mostra uma falta de compreensão de como a internet funciona, tecnica e socialmente.

Sendo que, assim como projetos de controle de armas, não irá inibir em maneira alguma os criminosos, que utilizarão laranjas, fantasmas, acessos internacionais e sabe-se lá o que mais para conseguir tocar seus "modelos de negócios".

Voltando à natureza da internet, o que quero dizer é que ela é fluída e em constante movimento. Uma prova disso é justamente o protesto na CampusParty, que conforme passava pelas diferentes áreas do evento ia tomando outras formas. Em questão de segundos o protesto também tratava de Software Livre e da liberação de Counter Strike.

Isso me fez pensar na frase estampada nos cartazes "porque lutamos?". O que leva alguém a se levantar e expressar indignação. Muitos diriam que preocupar-se com um video-game é um motivo fútil pelo qual protestar. Eu diria que não. A proibição de Counter-Strike é uma atitude retrógrada, arbitrária e sem qualquer embasamento. Se Counter-Strike pode ser censurado hoje, o que será amanhã? Pela "lógica" do juiz Carlos Alberto Simões de Tomaz, inúmeros filmes e novelas jamais seriam aceitáveis.

A questão é que o protesto tomou um aspecto de clamar por liberdade em geral: De acesso (Azeredo), de escolha (Software Livre) e de expressão (Counter Strike). Dentro e fora da internet buscamos exatamente isso, liberdade, e qualquer tentativa de limitá-la por razões torpes será respondida à altura. Em especial no que se trata a rede, um lugar cheio de idéias e opiniões, onde por mais que tentem, não seremos calados.

O curioso é que Azeredo governou um estado que tem justamente a palavra liberdade estampada em sua bandeira (o mesmo estado de atuação do juiz Simões). Ele deveria dar uma voltinha em ouro preto e rever a história da inconfidência. Quem sabe depois da mineira, não teremos a digital?

sexta-feira, dezembro 28, 2007

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Não há mais romance na guerra

Tive um fim de ano militarístico. Quem me conhece sabe que me interesso por assuntos relacionados à guerras e conflitos em geral, não que eu entenda muito do assunto, e de longe creio que Guerras são a solução para qualquer questão. Mas negar que algumas guerras foram necessárias, e acreditar inocentemente que elas não ajudaram a nos moldar como uma sociedade, isso não faço.

Tendo dito isso, já era um fã de longa data do filme Starship Troopers, sem nunca ter lido o livro. E agora que o li, me tornei um fã de ambos. Para quem não sabe, Starship Troopers é um clássico da ficção científica com uma fortíssima veia militar, e é basicamente um veículo para as idéias políticas e filosóficas de seu autor: Robert A. Heinlein (de Um Estranho Numa Terra Estranha).

A idéia central do universo de STPs é que civis não são cidadãos. Para se tornar um cidadão pleno, com direito à voto e concorrer na política é preciso alistar-se nas forças militares, cumprir um termo básico de serviço e se aposentar (com honras, claro). Um fato importante na organização militar da Federação é que todos lutam. Não há serviços confortáveis em escritório, e para seguir carreira de oficial é preciso estudar muito e lutar ainda mais. Funções burocráticas, de instrução, recrutamento e manutenção são realizadas no tempo "livre", por civis contratados ou soldados incapacitados (a maioria mutilados) que se negam a sair da corporação mesmo com a óbvia dispensa médica.

A teoria por trás dessa aristocracia meritocrática voluntária é que alguém que se alista nas Forças Armadas está disposto a colocar seus interesses pessoais, ou sua própria vida, em segundo plano em relação ao bem comum. Voluntários militares possuíriam uma abnegação natural inexistente naqueles que não têm coragem de lutar. E por conseguinte também seria uma maneira de acabar todas as revoluções. Já que a revolução é resultado de insatisfação com um instinto de lutar, ela jamais aconteceria, pois todos aqueles que têm o instinto de lutar já estão na classe que detém o poder e portanto as ferramentas de mudança sem o uso da violência.

Mas não se engane, em STPs existe plena liberdade de expressão e de ir e vir. Qualquer um pode reclamar a vontade, mas não são todos que podem fazer algo a respeito. Existem outras questões levantadas por Heinlein no livro, como pena capital e como criar seus filhos, mas isso seria uma outra discussão.

Honestamente, não posso dizer que discordo. Já declarei que ao menos no papel, concordo com qualquer forma de governo: Anarquismo, Totalitarismo, Comunismo, Democracia e provavelmente outros que nem conheço. Mas isso, no papel, pois na vida real todas as formas de governo são falhas, em especial uma baseada em dar poder apenas àqueles que detém a força.

E é aí que entra o filme de Starship Troopers. Dirigido pelo mestre Paul Verhoeven (de RoboCop e Vingador do Futuro) ele é em essência uma paródia de tudo aquilo que o livro representa. E o faz com acidez e bom-humor excepcionais.

Vários elementos do livro foram mudados, o que a maioria dos fãs reclamam é a falta da Powered Armor, um ítem importante na história, ignorado pelo filme; mas ela é apenas um elemento high-tech em uma história que lida com questões muito mais profundas, e para a mensagem do filme se tornar clara ela não é necessária, talvez até distraísse do ponto (que tão poucos conseguiram capturar). Embora sua presença no livro seja um marco na história da Ficção Científica, no filme ela seria apenas um gadget numa história sobre conflitos, e não gadgets. No final o filme consegue apontar dedo e dar risada de toda a exarcebação militar presente atualmente nos EUA.

O que conecta-me a outro filme que vi recentemente, Why we Fight, documentário justamente sobre a industria de armas e sua influência em escalar o tamanho e quantidade de conflitos militares no mundo. Basicamente denunciando as indústrias que no "futuro" irão fabricar as Powered Armors. Industrias essas que por tabela enchem os bolsos de contrabandistas de armas, como no outro filme recente, Senhor das Armas.

Com Nicolas Cage e Jared Leto, dirigido por Andrew Niccol (do maravilhoso Gattaca); o filme consegue levar as questões de War on War ao seu extremo dramático, com uma acidez semelhante á de Starship Troopers, mas com um cinisismo ainda maior, já que o narrador é o vilão/herói da história.

E a maneira como a presença militar atua hoje em dia, é basicamente uma máquina de jogar tempo e dinheiro (além de vidas) no lixo, como é possível ver em Soldado Anônimo (de Sam Mendes, que nos trouxe Beleza Americana). Um conflito envolvendo 500.000 tropas em que passa-se mais tempo esquivando-se do tédio do que combatendo o inimigo.

E é exatamente isso que a máquina militar se transformou hoje. Um enorme desfile de gastar recursos que podiam ser melhor empregados simplesmente para defender interesses econômicos atravéz de Intimidação. Onde cada lado fica mostrando o tamanho de seu pinto até que o outro corra de medo de ter seu cu arrombado. Não existe mais defesa de território, liberdade ou ideologias. Os pobres soldados são tão enganados quanto os civis, e não detém poder algum. Robert A. Heinlein estava errado, Dwight D. Eisenhower estava certo.

Agora vou jogar America's Army.